18 de abril de 2011

Tipos de Parto

Contribuição Cris, a Doula
No dia 31 de março foi ao ar o FALANDO - um programa da TVCOM aqui de Florianópolis, e eu era uma das entrevistadas. Fui como Ginecologista e Obstetra, falar sobre tipos de parto.

Na realidade e como todos sabem, existem 2 tipos de parto - o parto vaginal e o parto cesáreo. A verdade é que o Parto Normal (vaginal) tem diversas variações de posições e conduções, mas o desfecho (o bebê saindo pela vagina) é o mesmo.

Induvidavelmente o Parto Normal, quando realmente ocorre da maneira fisiológica, é a via de escolha mais acertada tanto para mãe quanto para o bebê.
As vantagens são inúmeras - mais rápida e melhor recuperação, maior facilidade no aleitamento materno, menor risco de contaminação, infecções e outras complicações pós-operatórias, o bebê chora e respira mais rapidamente, além dos benefícios psicoafetivos que envolvem o binômio mãe-bebê. A mãe participa ativamente do nascimento do filho e pode prontamente recebê-lo nos braços (e também no peito).

Mas é óbvio que existem indicações e algumas vantagens para o Parto Cesáreo, como brevidade do trabalho de parto, não passar por todas as contrações e nem pelas complicações que por ventura ocorreriam durante o trabalho de parto... Fiquei pensando e não achei tantas vantagens assim. Vantagem mesmo é quando a cesárea é feita de oportunidade, no horário e dia que a paciente quer ou pode, tipo numa segunda-feira, quando o marido consegue usufruir de 5 dias corridos de licença paternidade, mas dá até vergonha de expor essas "vantagens", sabendo-se que é errado.

Acontece que a cesareana tem indicações quase que precisas. Fetos comprometidos com alguma malformação, ou então com restrição de crescimento (que caracteriza um fluxo placentário ruim), ou ainda em posição anômala e algumas condições maternas onde o parto se faz uma urgência e literalmente temos que INTERROMPER uma gravidez.

Sobre as cesáreas marcadas, que têm a vantagem de que podem ocorrer no melhor dia e hora para a mãe e sobretudo para o médico, não tenho nem o que dizer...
O ideal é mesmo que saibamos que a paciente terá que ser (ou quer porque quer ser) submetida a uma cesareana, ela no mínimo entre em Trabalho de Parto, comece a sentir as contrações ou estoure a bolsa.
Isso porque nada mais justo do bebê escolher a hora de nascer, de sinalizar realmente que está maduro e que pode nascer sem problemas.
Além disso, quando se entra em trabalho de parto, a gestante começa a liberar hormônios que vão ser imprescindíveis para a recuperação pós-parto e amamentação. A ocitocina endógena (a que a gente mesmo fabrica) é bem mais eficiente do que aquela que os hospitais administram nas veias, tanto na redução do volume uterino e sangramento quanto na indução do aleitamento materno.
Até mesmo para o cirurgião o trabalho de parto facilita muito! Isso porque o útero está mais fino e trabalhando em pró do parto, sendo mais fácil e menos traumático para a mãe e o bebê.

Outra coisa é que existem PARTOS NORMAIS e PARTOS NORMAIS, né?
Eu já testemunhei partos vaginais sem "normalidade" nenhuma, em que as pacientes foram mal orientadas durante o pré-natal e simplesmente não foram muito "felizes" durante o parto. E também já testemunhei partos MARAVILHOSOS, sem gritos, sem intercorrência nenhuma, praticamente a luz de velas, onde o pai chora no final, mãe chora de emoção e até eu choro junto de tão lindo e maravilhoso!

A episiotomia, hoje considerada por muita gente como desnecessária, ultrapassada e mutilante, tem suas indicações - quando pacientes tem períneo curto e tenso, que realmente dificultam a saída do feto. Podem me dizer o que quiserem, mas já vi muita episiotomia "salvar a pátria" no desfecho do trabalho de parto. Fora que a laceração que pode ocorrer quando a epísio não é feita pode ser muito maior e mais mutilante, deixando algumas vezes até a paciente sem condição de segurar as fezes.

Manobras para ajudar o bebê a nascer, como empurrar por cima da barriga, utilizar um fórcipe (aqueles ferros) são bem comuns acontecerem (e necessários!) e algumas vezes torna o parto normal meio "anormal", mesmo que o desfecho seja bom (mãe e bebê recuperados e saudáveis), o que nem sempre acontece.

Algumas vezes podem existir desproporções entre mãe e feto, problemas de dilatação, problemas de rotação e posição da cabecinha e ombros, que as vezes causam grandes problemas para a expulsão do bebê, que pode parar de respirar, trancar os ombros, quebrar a clavícula, etc. 
Para nós, obstetras, esse é pesadelo que mais consome e que muitas vezes provoca número excessivo de cesareanas (que também não estão livres de riscos semelhantes), a gente tem a sensação confortante de estar no controle da situação, sem esperar pelas surpresas da mãe natureza. Mas talvez isso seja só uma sensação mesmo...

Hoje em dia a mídia pega muito nessa coisa de amamentação exclusiva no seio, de parto normal natural e etc. Tudo bem que existe gente desinformada que realmente prefere levar tudo pela opção aparentemente mais fácil. Mas tem aquelas mulheres também que NÃO PUDERAM ou não podem, ter o parto normal, ou ainda não conseguiram manter seu filho 100% ao leite materno, e mesmo assim NÃO SÃO MENOS MÃES e não devem se sentir mal por isso...

O fato é que, em resumo, quando se está no final da gestação e tudo vai bem, esperar o trabalho de parto é a melhor escolha, e a mais certa.
Entrando-se em trabalho de parto, quando tudo caminha bem, as contrações coordenadas e progressiva dilatação do colo, com o feto com boa vitalidade e na posição certa, não tem porque se adiantar e fazer cesareana. A dor das contrações hoje conta com o artificio da analgesia, o que deixa a gestante 100% mais confortável e disposta para cooperar durante o trabalho de parto. Medicações para coordenar as contrações as vezes podem ajudar na abreviação do parto, embora nem sempre seja indicada.
Agora, quando surge uma complicação, um desvio maior da normalidade, a cesareana é sim um artifício bem-vindo!

Antes que me perguntem, passei por 2 cesareanas.
Na primeira vez, entrei em trabalho de parto e não tive progressão da dilatação durante 24 horas.
Na segunda vez precisei ter a gestação interrompida com 38 semanas porque contraí a gripe A, que naquela época estava matando gestantes...
Vou dizer uma coisa, para quem tem medo de sentir dor nas contrações - o pós operatório de cesárea é bem dolorido também!

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